Written by Cynthia on 16 de agosto de 2010 – 3:05
Copo meio cheio ou meio vazio, vai saber. No fim a ressaca das pernas é a mesma, isso que já não se anda tanto há um certo tempo. O pensamento fechado, a conversa vazia, noites a fio sem sequer uma sensação de descanso. A cabeça trabalhando fora de sintonia com as palavras, os gestos, as ações. É uma contradição interna, para que no fundo ninguém saiba o segredo da tranca - que de segredo, convenhamos, não tem nada.
Essa vida torta parece um baile de máscaras. A gente esquece nome, rosto, corpo, pele, roupas, pudor… Não espera amanhecer, pois a primeira chegada da luz é suficiente para nos lembrar que é outro dia. Passa a festa, voltamos pra casa e o dia amanhece como se nada fosse importante o suficiente para ser lembrado.
E a gente se consome todo dia…
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Written by Cynthia on 16 de abril de 2010 – 18:32
Meu maior erro foi tentar entender,
Foi buscar sempre o possível e não o improvável,
Foi seguir o curso sem tentar nadar,
Foi exagerar na conversa e diminuir no olhar,
Foi procurar respostas a perguntas que eu nem tinha feito,
Foi viver com vergonha de ser feliz.
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Written by Cynthia on 23 de março de 2010 – 15:50
O prazer do livro lido, guardamos, quase sempre, no segredo do nosso ciúme. Seja porque não vemos nisso assunto para discussão, seja porque, antes de podermos dizer algum coisa, precisamos deixar o tempo fazer seu delicioso trabalho de destilação. E este silêncio é a garantia da nossa intimidade.
[...]
Silêncio, então…
Menos, é claro, para os fazedores de frases do poder cultural.
Ah! esses propósitos de salão, onde ninguém tem nada a dizer a pessoa alguma e a leitura passa para o plano de assuntos de conversa possíveis. O romance engolido como uma estratégia de comunicação! Tantos gritos silenciosos, tanta gratuidade obstinada para que um cretino vá se exibir para uma pretensiosa: “Como, você não leu nenhum livro de Céline?”
Há quem mate, por menos que isso.
(Como um romance, Daniel Pennac.)
Não é à toa que eu preferi o silêncio.
Mas sabe-se lá até quando,
ou até onde.
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Written by Cynthia on 5 de fevereiro de 2010 – 20:56
Às vezes eu acho que todos os pensamentos acabam convergindo em algum momento.
É como se para o pensamento não existisse tempo nem autor, apenas maneiras de enunciá-lo.
O sofrimento - curioso como talvez lhe possa parecer - é o nosso meio de vida porque é o único meio através do qual temos consciência de existir; a lembrança dos sofrimentos passados nos é necessária como um testemunho, uma prova de que continuamos a manter a nossa identidade.
(De Profundis, Oscar Wilde.)
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Written by Cynthia on 31 de dezembro de 2009 – 20:58
Instinto
(…)
Os relacionamentos pulam de um instinto para o outro. O primeiro é a busca pela presa. Ela pode ser tão igual quanto tantas outras: a primeira ideia apenas preencher o vazio do estômago. Aliviar aquela dor que arranha as paredes internas do organismo, desejando por uma forma de nutrir suas satisfações. Estar sozinho, no primeiro momento, é uma dor quase insuportável. É que você passou quase tanto tempo caçando carne nova que simplesmente se cansou de procurar e foi buscar em algum buraco qualquer.
O segundo instinto é o da segurança. Encarando, então, os olhos do bezerro mais inocente e cheio de confiança que te apareceu em algum curral, não pensou duas vezes antes de abocanhá-lo, acreditando que aquilo era o suficiente para te suprir por uma vida inteira. Quando se está satisfeito, parece que não falta mais nada e que a fome não vai apertar até você se sentir preparado para isso. Não importa quantos outros pratos interessantes apareçam como tentação, seu estômago já está tão estufado com o mais-do-mesmo que não tem mais olhos para carne nova. Caminhar se torna tranquilo. Não se tem mais fome ou sede, e o corpo se conforma com a calmaria da estrada e estabilidade do processo.
Isso até chegar o terceiro instinto. Depois de dias comendo do mesmo prato, a sensação que se tem é a vontade de experimentar outra coisa. E não é preciso buscar em um rancho ou mercado diferente para controlar aquela pontinha de fome que começa a aparecer. Muitas vezes a carne passada duas vezes parece mais apetitosa quando você já tem o prato servido com outra coisa.
(…)
É claro que existem outros instintos. Vou me privar momentaneamente de descrições mais detalhadas, mesmo porque nunca vai ser possível descrever verdadeiramente como eles são, seja qual for o estágio da minha vida.
(…)
E surge dúvida sobre o instinto da fidelidade.
Não. Fidelidade não é instinto. É só um tira-gosto que serve para manter a boca ocupada antes da embriaguez.
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